O planejamento urbano no Brasil segue operando a partir de uma lógica que ignora o trabalho de cuidado e, com isso, penaliza diretamente as mães. Ao organizar a cidade em torno de fluxos produtivos e deslocamentos lineares, o urbanismo desconsidera a complexidade da vida cotidiana e reproduz desigualdades de gênero, classe e território.
O chamado direito à cidade não se realiza quando acessar escola, saúde, transporte e trabalho depende de percursos longos, infraestrutura precária e serviços insuficientes. Para mulheres que são mães, especialmente as que vivem nas periferias e sustentam suas famílias, a cidade não garante direitos: ela impõe barreiras.
A mobilidade urbana é um dos pontos mais evidentes dessa desigualdade. Mães não fazem apenas o trajeto casa-trabalho. Elas realizam deslocamentos que incluem escola, creche, unidades de saúde e tarefas domésticas. Ainda assim, o sistema de transporte é pensado para um usuário padrão que não existe: alguém sem responsabilidades de cuidado.
O resultado é previsível: mais tempo gasto em deslocamento, maior desgaste físico e menos acesso a oportunidades. A precariedade do transporte público, aliada à distância entre moradia e serviços, transforma o direito de ir e vir em um exercício diário de resistência.
Segundo a arquiteta e urbanista, mestre em arquitetura sustentável e doutora em regeneração urbana, Ivana Jalowitzki, ser mãe mudou a forma como ela enxerga a cidade, pois temas como segurança, autonomia, acesso aos espaços públicos e qualidade ambiental deixaram de ser apenas conceitos técnicos e passaram a fazer parte das demandas individuais do cotidiano. “Essa vivência me faz reconhecer que existem muitas maternidades em uma mesma cidade, atravessadas por desigualdades sociais e territoriais, e que nem todas as mães têm as mesmas condições de garantir bem-estar para seus filhos. Na minha atuação com processos participativos e redução de riscos de desastres, isso é muito evidente, pois são as mulheres que frequentemente sustentam o cuidado em contextos mais vulneráveis, o que reforça a necessidade de construir cidades mais justas, inclusivas e resilientes.”
A infraestrutura urbana evidencia outra dimensão do problema. Calçadas intransitáveis, ausência de acessibilidade, iluminação insuficiente e insegurança não são falhas pontuais, são características estruturais de um modelo de cidade que não considera quem cuida.
Equipamentos públicos, quando existem, estão mal distribuídos. Creches insuficientes, escolas distantes e unidades de saúde sobrecarregadas reforçam uma lógica de exclusão territorial. A cidade, nesse contexto, não apenas falha em garantir direitos, ela intensifica a sobrecarga das mulheres.
Para Ivana, os obstáculos do dia a dia mostram que a cidade ainda não foi pensada para quem cuida, e isso se expressa de formas diferentes dependendo da realidade de cada mãe. “Enquanto algumas enfrentam a sobrecarga de deslocamentos, outras lidam com a ausência de transporte adequado, de serviços próximos e até de segurança para circular. A mobilidade urbana segue baseada em um modelo limitado, centrado no trajeto casa-trabalho, ignorando os percursos múltiplos do cuidado, o que se soma a calçadas precárias, transporte público pouco acessível, insegurança e falta de espaços públicos qualificados.”
Essas condições não se distribuem de forma homogênea. A precariedade urbana tem endereço. Está concentrada nas periferias. São nesses territórios que a ausência do Estado se torna mais evidente e onde o custo de viver a cidade é mais alto. “O planejamento urbano ainda considera muito pouco as demandas de cuidado e, quando considera, frequentemente não contempla a diversidade das realidades urbanas, o que reforça desigualdades”, reforça a profissional.
A exclusão das mulheres dos espaços de decisão urbana é parte do problema. Sem incorporar as experiências de quem vivencia a cidade a partir do cuidado, o planejamento segue reproduzindo soluções que não respondem à realidade.
Incluir mulheres e, especialmente, mães nos processos de formulação de políticas urbanas não é uma questão simbólica. É condição para produzir cidades mais justas e funcionais.
A arquiteta ainda explica que a inclusão de mulheres nos espaços de decisões é fundamental, pois não existe uma única experiência de maternidade, e essa diversidade precisa estar representada na formulação das políticas urbanas. “Quem vive o cuidado no cotidiano traz uma compreensão mais ampla e concreta da cidade, incorporando questões muitas vezes invisibilizadas, como segurança, mobilidade cotidiana, acesso a serviços e qualidade dos espaços públicos. A ONU reforça que a participação das mulheres é essencial para o desenvolvimento sustentável, e, no campo urbano, isso se traduz em cidades mais justas, inclusivas e preparadas para responder à complexidade da vida real.”
Enfrentar esse cenário exige mais do que ajustes pontuais. É necessário reorganizar as prioridades do planejamento urbano, colocando o cuidado no centro das políticas públicas. Sem essa mudança, o discurso sobre direito à cidade permanece vazio para uma parcela significativa da população.
A forma como as cidades são organizadas hoje revela uma escolha política: quem tem seu tempo protegido e quem tem sua rotina precarizada. Para as mães, especialmente as mais pobres, a cidade continua sendo um território de obstáculos.
Colocar o cuidado no centro do urbanismo não é uma pauta setorial. É uma condição para que o direito à cidade deixe de ser privilégio e passe a ser, de fato, universal.
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