O domingo de Carnaval deste ano movimentou o Brasil inteiro por um motivo diferente. Dando uma pausa na folia, em clima de Copa do Mundo, a população parou tudo para assistir o país levar o Oscar de Melhor Filme Internacional pelo filme Ainda Estou Aqui, uma vitória que trouxe muito orgulho para o povo brasileiro, além de celebrar mundialmente a democracia e a liberdade pela qual tanto lutamos.
Outro momento que marcou a história de um país foi a premiação na categoria Melhor Filme de Animação. A estatueta foi entregue a Flow, filme da Letônia, que tornou-se o primeiro longa do país báltico, com 1,8 milhão de habitantes, a conquistar uma indicação e a vencer um Oscar.
Um fato interessante é que o filme, produzido com uma equipe e orçamento enxuto, custando cerca de US$ 3,8 milhões, foi desenvolvido com Blender, software 3D gratuito e de código aberto. A produção da animação construiu grandes cenários em 3D e passeou por eles com a câmera. Isso substituiu o habitual desenho de storyboard, espécie de história em quadrinhos utilizada para guiar a gravação.
A arquiteta e urbanista e instrutora do projeto Solare (Softwares Livres para Arquitetura e Engenharia), Paula Moreira, explica que na arquitetura e urbanismo, o Blender vem sendo muito utilizado para renderização de imagens. “O render aplicado a um projeto arquitetônico pode permitir uma experiência realista de como um espaço ou construção ficará antes de ser materializado.”
Paula também reforça que o Blender possui ferramentas bem desenvolvidas, principalmente para as áreas de animação, games, VFX, além de modelagem 3D. “Todas essas funcionalidades são potencializadas pelo fato do Blender ser um software livre e gratuito. Desta forma, ele pode ser executado, copiado, modificado e redistribuído pelos usuários, possibilitando seu desenvolvimento e manutenção de forma colaborativa, podendo, assim, ser uma ferramenta de promoção e compartilhamento de conhecimento.”
Para Allan Brito, arquiteto e urbanista e colaborador do Solare, a vitória de Flow representa mais que uma conquista artística, mas, também, um marco para o movimento de software livre. “Utilizando exclusivamente o Blender, um software 3D de código aberto, o diretor Gints Zilbalodis provou que ferramentas acessíveis podem produzir resultados de nível mundial quando nas mãos de profissionais criativos e dedicados.”
Alan também explica que o acontecido é mais um impulso para profissionais de arquitetura e urbanismo que pensam em migrar para softwares de código aberto. “Softwares como FreeCAD e QCAD oferecem alternativas robustas às dispendiosas soluções proprietárias tradicionalmente utilizadas no setor. O FreeCAD, com seus recursos paramétricos avançados, permite que arquitetos criem modelos complexos e precisos, enquanto o QCAD oferece uma solução acessível para desenho técnico 2D. O próprio Blender, embora frequentemente associado à animação, tem se mostrado uma ferramenta poderosa para visualização arquitetônica e estudos conceituais.”
O Solare, projeto desenvolvido pela FNA, busca fomentar o uso e o desenvolvimento de softwares livres necessários à prática da arquitetura, urbanismo e engenharia, mostrando que é possível utilizar programas de código aberto para o exercício da profissão.
No canal do YouTube do Solare, você encontra cursos para utilização dos programas e no site do projeto é possível acompanhar novidades sobre o mundo de softwares livres.
Foto: Reprodução/Blender