Muito além da música, da fantasia e da celebração, o Carnaval é um dos momentos mais explícitos de disputa pelo espaço urbano no Brasil. Nas grandes cidades, especialmente em Salvador, a festa escancara tensões históricas entre poder público, mercado, planejamento urbano e manifestações populares, evidenciando o papel da cultura no país, quem pode ocupar a rua, quem define os percursos, os acessos e os limites da festa.
Para o arquiteto e urbanista Paolo Pellegrino, especialista em Assistência Técnica e Direito à Cidade e presidente do SINARQ-BA, essa disputa é estrutural e atravessa a história do Carnaval baiano. “Na Bahia esse fato é histórico, as elites sempre privatizaram o espaço público, com os blocos de rua fechados”, afirma.
Segundo ele, a redução recente do número de blocos não pode ser lida, automaticamente, como uma democratização da festa. “De uns anos pra cá, o número de blocos vem diminuindo, não por uma conquista do espaço público, mas pela inviabilidade econômica dos blocos e pela migração do público para os camarotes fechados”, explica. O resultado é a consolidação da lógica de, mesmo que o Carnaval aconteça na rua, nem sempre é acessível a todos.
O Carnaval também desafia as formas tradicionais de planejamento urbano.“O Carnaval é uma festa muito orgânica. Por mais que se pense em planejamento, muita coisa acaba não funcionando, fazendo com que as decisões sejam tomadas em tempo real”, destaca Pellegrino. Ele ainda ressalta que, apesar disso, houve avanços significativos na organização da festa. “Cada vez mais as equipes que trabalham no Carnaval vêm se profissionalizando para prestar melhores serviços à população, mas em uma festa que agrega milhares de pessoas nas ruas, imprevistos sempre vão acontecer.”
Essa dinâmica revela tanto a potência quanto às fragilidades das cidades brasileiras, ainda pouco preparadas para priorizar o uso coletivo e cultural do espaço urbano em larga escala. Para Paolo, a arquitetura e urbanismo têm papel central na preservação da memória cultural do Carnaval nas cidades brasileiras, sobretudo quando articulados às políticas públicas. “A arquitetura e urbanismo contribuem para a preservação da memória cultural da festa carnavalesca por meio das políticas públicas do Estado e do Município. Há vários arquitetos nos órgãos públicos trabalhando diretamente no Carnava”, explica.
Diferente de cidades como o Rio de Janeiro, Salvador não tem uma tradição consolidada de escolas de samba. Ainda assim, a cidade se transforma anualmente com a montagem de estruturas que impactam provisoriamente o espaço urbano. “Essas estruturas, como camarotes e praticáveis, também utilizam a mão de obra de arquitetos na elaboração dos projetos e na execução.”
Nesse sentido, o envolvimento das comunidades carnavalescas nos projetos é indispensável. São elas que conhecem os territórios e vivenciam os impactos positivos e negativos da festa no cotidiano. “Essas comunidades têm a vivência do Carnaval e podem contribuir muito com o planejamento da festa”, destaca o arquiteto.
Para o arquiteto e urbanista, integrante do SARJ e diretor de Comunicação da FNA, Rodrigo Bertamé, a ocupação da cidade por blocos e desfiles revela quem pode ou não existir no espaço urbano. “Para populações negras e periféricas, ocupar o centro é um ato político que afirma pertencimento. O carnaval transforma a rua em espaço comum e coletivo, em oposição à tentativa de mercantilizar e controlar a cidade por meio de grades, policiamento seletivo e cercamentos.”
O profissional também explica que o carnaval expõe que o planejamento urbano brasileiro historicamente administra a exclusão. “Ao ocupar ruas e avenidas, manifestações populares afirmam que a cidade não é só circulação ou técnica, mas experiência coletiva. O conflito surge porque o carnaval redistribui, ainda que temporariamente, o direito de estar, aparecer e celebrar no espaço urbano.”
Desta forma, a arquitetura e urbanismo é capaz de legitimar o que pertence à cidade, propondo utilização do espaço público por toda a população, colaborando com o que já acontece no território. ”Além disso, o carnaval propõe uma arquitetura menos privatizada, onde corpo, rua e comunidade são inseparáveis”, reforça, Bertamé.
A participação das comunidades carnavalescas se faz fundamental no planejamento urbano, pois elas vivem a cidade real. “Sem o povo, planejamento é apenas papel. Com ele, vira ação concreta. As comunidades constroem a cidade apesar das limitações impostas e devem ser referência para arquitetos aprenderem com o cotidiano, a memória e os modos populares de viver o espaço urbano”, finaliza.
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