Arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Raimundo Nonato da Silva Souza atua na interface entre arquitetura, território e crise climática. Especialista em computação gráfica aplicada, ele acompanha de perto os impactos ambientais e sociais vividos na Amazônia.
Nesta entrevista, fala sobre sua participação em novembro de 2025 da COP30 em Belém (PA), a centralidade da moradia digna no debate climático e o papel da arquitetura e do urbanismo na construção de cidades mais justas, a partir da escuta dos territórios e de seus saberes. “A natureza e as pessoas demonstram que existe esperança, construída a partir da ação coletiva. A história mostra que avanços considerados impossíveis se tornaram realidade por meio de mobilização e trabalho contínuo”, defende.
1. A COP30 ocorreu pela primeira vez na Amazônia, em Belém, sua cidade. Como essa localização influenciou o debate climático e o que representou para você participar da conferência vivendo diariamente os efeitos ambientais e sociais da região?
A COP30 em Belém foi uma oportunidade de tirar o debate ambiental de ambientes teóricos e levá-lo ao campo real. A conferência colocou foco em pautas centrais do tema climático, com seus problemas e possíveis soluções, a partir da escuta e da participação direta da população que vive esses impactos no dia a dia.
2. O coletivo Arquitetos pela Moradia levou à COP30 a Carta Manifesto em defesa da Athis como instrumento para garantir o direito à moradia digna. Quais foram os principais pontos dessa carta e qual impacto é esperado entre os formuladores de políticas públicas?
A carta-manifesto aponta que a crise climática afeta toda a população, mas de forma desproporcional as periferias, fenômeno identificado como racismo ambiental. O documento destaca a Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Lei Federal nº 11.800, de 2008) como uma das ferramentas para enfrentar esse quadro. A lei se estrutura em eixos como moradia adequada com adaptação climática; financiamento e descentralização; justiça territorial, com enfrentamento da segregação urbana e ampliação de áreas verdes nas periferias; e oferta de apoio técnico gratuito. O objetivo do manifesto na COP30 é deslocar a Athis do campo da assistência técnica para o do investimento climático, com integração aos planos de adaptação, atração de recursos internacionais e compromisso dos municípios. O texto afirma que não há transição ecológica sustentável sem enfrentar o déficit de moradia digna.
3. Um dos diferenciais da COP30 foi a presença popular, com articulação entre Zona Azul, Zona Verde e Cúpula dos Povos. De que forma essa participação ampliada influenciou o debate sobre cidades, habitação e justiça climática?
A participação popular foi o principal ponto positivo da COP30. As articulações e conexões entre os espaços ampliaram o debate e permitiram a inclusão de temas que normalmente ficariam fora da agenda formal, como as condições de trabalho e a realidade de quem vive nos territórios afetados.
4. Em suas falas na COP30, você destacou que a Região Norte é historicamente explorada e sente de forma mais direta os efeitos da crise climática. Quais seriam, na sua avaliação, as prioridades imediatas para reduzir essa vulnerabilidade urbana e rural?
A prioridade é reconhecer as diferenças regionais sem tratá-las como exóticas. As distintas formas de viver e ocupar o território podem conviver sem que uma anule a outra. Quando uma estrutura social ou cultural se perde, toda a sociedade perde, inclusive conhecimentos acumulados ao longo do tempo.
5. Muito se fala que o futuro sustentável passa por planejamento urbano, habitação social e visão integrada entre território e meio ambiente. A partir das discussões da COP30, que caminhos concretos você enxerga para incorporar esses princípios na prática profissional e na formulação de políticas públicas?
Há conhecimento acumulado suficiente para observar e aprender com os povos que habitaram esses territórios por séculos, em convivência com a natureza. Esses saberes mostram caminhos possíveis. O desafio não é avançar além disso, mas evitar retrocessos que levem à destruição do que já existe.
6. É possível uma arquitetura sustentável, baseada em justiça climática e em novos modelos de produção do espaço urbano?
É possível. A história apresenta diversos exemplos. Não se trata apenas de uma perspectiva eurocêntrica, mas de experiências presentes em diferentes biomas, com modelos de uso do território baseados em justiça climática e sustentabilidade.
7. Qual foi a sua principal experiência na COP30 e que mensagem ela deixa sobre mudanças de postura, métodos ou compromissos urgentes para arquitetos, urbanistas e governos?
A principal experiência da COP30 foi a mensagem de que, apesar de estudos científicos indicarem que a humanidade ultrapassou limites ambientais, ainda há possibilidade de mudança. A natureza e as pessoas demonstram que existe esperança, construída a partir da ação coletiva. A história mostra que avanços considerados impossíveis se tornaram realidade por meio de mobilização e trabalho contínuo.





