À frente da Tekôa, Nadiane Castro aplica arquitetura popular como ferramenta de transformação social

Fundadora da Tekôa, negócio de impacto social com atuação na zona sul do Rio Grande do Sul, Nadiane Fontes Castro atua a partir de sua identificação com o poder transformador da arquitetura e urbanismo. Gaúcha, nascida e criada na cidade de Rio Grande (RS), é formada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e possui MBA em Empreendedorismo Social e Negócios de Impacto. “O diferencial de um arquiteto que trabalha com negócios de impacto, na maioria das vezes, está na compreensão profunda do território, das dinâmicas locais e das relações estabelecidas com as famílias”, salienta.

A identificação com a arquitetura popular surgiu ainda na graduação. Seu primeiro contato com o impacto social da profissão aconteceu no Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (EMAU) da universidade, em 2018. Foi lá que se envolveu no projeto que contribuiu para transformar a realidade da Vila de Pescadores Estrada do Engenho, em Pelotas (RS), então ameaçada de remoção. “A partir disso, comecei a entender que existia um mundo de arquitetos que não fazia apenas construções de alto padrão. Percebi que era possível atuar dentro das comunidades em que vivo e me relaciono, em uma realidade que faz mais sentido para mim”, explica.

Após a formatura, Nadiane passou a trabalhar com pessoas já vinculadas à arquitetura popular. Aos poucos, foi conquistando experiência e seu espaço, até conseguir estruturar sua atuação profissional e formalizar seu próprio trabalho. Em 2022, deu início oficialmente às atividades da Tekôa, nome inspirado na palavra guarani tekoá, que significa território ou aldeia.

O escritório na zona Sul do RS, atua em três frentes. A primeira é voltada às reformas e melhorias habitacionais, garantindo às famílias acesso a projeto, acompanhamento técnico, mão de obra e materiais, seja por meio de financiamento ou subsídios.

A segunda são as oficinas voltadas a ensinar mulheres na construção civil, que surgiram a partir de uma demanda espontânea: mulheres interessadas em aprender. O que começou como uma tentativa de formar uma equipe feminina de trabalho se transformou em um espaço de troca, aprendizado e autonomia, com oficinas de pintura, marcenaria, reboco e chapeamento. “A gente vem buscando ampliar cada vez mais esse trabalho. Só neste ano, já realizamos quatro oficinas”, destaca.

A terceira frente de atuação é a assessoria técnica para associações comunitárias e organizações da sociedade civil. Nesse campo, a Tekôa atua desde o diagnóstico técnico até o apoio à captação de recursos, sempre com metodologias participativas e foco em projetos coletivos.

Com a experiência, a bagagem social e a propriedade de quem atua diretamente com arquitetura popular, Nadiane defende a valorização profissional. “É fundamental nos posicionarmos para afirmar que a arquitetura popular não é trabalho voluntário. Não se trata de fazer com que famílias em situação de vulnerabilidade social paguem por isso, mas de compreender que investir nessas melhorias é investir em impacto social, e isso inclui investimento nos profissionais que realizam esse trabalho”, afirma.

Mais recentemente, sua luta e atuação têm extrapolado os limites do escritório. No início deste ano, Nadiane iniciou sua trajetória no movimento sindical e, agora, integra a nova gestão do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado do Rio Grande do Sul (Saergs), com o cargo de vice-diretora de Relações Institucionais. Ao refletir sobre esse caminho, ela destaca a importância da luta conjunta para alcançar avanços para toda a categoria. “Por muito tempo, principalmente por ser uma das poucas arquitetas em Rio Grande atuando com arquitetura popular, eu me senti sozinha na dualidade entre precisar pagar as contas e, ao mesmo tempo, atender as famílias. Ao conviver com outros profissionais que vivem a mesma realidade, ficou claro para mim que essa é uma luta coletiva, e que é exatamente disso que trata a luta sindical”, conclui.

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