Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) transformou resultados acadêmicos sobre desigualdades urbanas em uma ferramenta pedagógica. Desenvolvido por pesquisadoras da Escola de Arquitetura e Urbanismo da universidade, o “Jogo do Cuidado, um jogo sobre o direito à cidade das mulheres”, busca estimular reflexões sobre o trabalho do cuidado, a organização das cidades e as desigualdades de gênero a partir de uma dinâmica lúdica aplicada em escolas.
Coordenado pela professora Rossana Brandão Tavares, o projeto nasceu no contexto de uma pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), voltada a compreender como as condições urbanas afetam o cotidiano das mulheres. Segundo a pesquisadora, o jogo surgiu também como resposta a uma exigência do edital, que previa o desenvolvimento de atividades científicas e tecnológicas em escolas públicas.
A iniciativa foi realizada em parceria com uma liderança do Quilombo da Gamboa, no Rio de Janeiro, e com o Colégio Reverendo Hugh Clarence Tucker, onde foram realizadas oficinas com professores e estudantes. Nessas atividades, o grupo apresentou a pesquisa e propôs criar uma ferramenta pedagógica capaz de discutir o tema do cuidado de forma acessível e participativa.“Buscamos fugir de atividades mais convencionais, como palestras ou exposições, e pensamos em algo lúdico e pedagógico. Assim surgiu a ideia do jogo”, explica Tavares.
Dinâmica do jogo
O jogo funciona como um tabuleiro ambientado na região portuária da cidade do Rio de Janeiro. Os participantes assumem personagens que representam diferentes grupos sociais e circulam por regiões fictícias inspiradas nos bairros da área, como Gamboa, Saúde e Santo Cristo. Cada jogador recebe cartas que indicam condições econômicas e responsabilidades relacionadas ao cuidado. Ao longo da partida, novas cartas são sorteadas e definem acontecimentos que podem melhorar ou dificultar a vida das personagens. Essas cartas incluem situações de sorte ou revés, cartas de direitos, que representam equipamentos urbanos que auxiliam nas tarefas de cuidado, e cartas coringa, que permitem ações como mudança de região ou ajuda a outras personagens.
Além disso, os jogadores lidam com recursos econômicos e “cédulas do cuidado”, que representam o tempo e a energia dedicados às atividades de cuidado no cotidiano. Ao final da partida, vence quem acumular mais destas cédulas.
Segundo a coordenadora do projeto, as diferentes situações vividas pelas personagens ajudam a evidenciar como desigualdades sociais influenciam a experiência urbana. “Ao longo do jogo, ficam claras as diferenças de condições de vida entre os grupos e como fatores como gênero, raça, classe e idade impactam o acesso a direitos e oportunidades na cidade”, afirma.
Pesquisa e desenvolvimento
A criação do jogo foi resultado de cerca de um ano de trabalho de uma equipe de pesquisadoras, com participação de estudantes e professores da escola parceira. Durante o processo, foram realizadas atividades de cartografia com alunos do ensino médio, além de testes de metodologias pedagógicas e experimentações com jogos educativos.
A iniciativa faz parte do projeto de pesquisa “Inversões Urbanas: cartografias da reprodução social dos territórios”, que investiga as relações entre a organização das cidades e o trabalho de reprodução social, atividades que garantem a manutenção da vida cotidiana, como cuidar de crianças, idosos e da casa.
De acordo com Tavares, essa perspectiva busca deslocar o olhar tradicional da arquitetura e do urbanismo, que historicamente prioriza questões produtivas e econômicas das cidades. A proposta é destacar o papel das práticas de cuidado na estrutura urbana e nas experiências sociais vividas nos territórios.
Ferramenta para a sala de aula
Embora tenha origem em uma pesquisa acadêmica, o jogo foi pensado principalmente como um instrumento pedagógico. Voltado inicialmente para estudantes do ensino médio, ele também pode ser utilizado em outros contextos educacionais ou por pessoas interessadas em jogos de tabuleiro.
No manual do jogo, os professores encontram sugestões de perguntas e dinâmicas para estimular debates após as partidas. A ideia é que os estudantes analisem as trajetórias das personagens e reflitam sobre os fatores que levaram aos resultados obtidos no jogo.
Para a pesquisadora, esse processo ajuda a compreender que o cuidado não é apenas uma questão individual ou familiar, mas um elemento central para o funcionamento das cidades.“O objetivo é mostrar que o cuidado sustenta a vida cotidiana e que, sem ele, as cidades não existiriam. Ao mesmo tempo, queremos provocar reflexões sobre como essas responsabilidades são distribuídas de forma desigual na sociedade”, explica.Ao transformar conceitos da pesquisa acadêmica em uma experiência interativa, o “Jogo do Cuidado” busca ampliar o debate sobre desigualdades urbanas entre jovens e estimular a participação crítica dos estudantes na discussão sobre o futuro das cidades.
Crédito da foto: Beatriz Corbacho
