A trajetória da arquiteta e urbanista Fernanda Simon é marcada pela atuação em diferentes frentes que articulam prática profissional, pesquisa acadêmica e engajamento político. Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, doutoranda na Universidade Federal da Bahia (UFBA), sua caminhada revela um compromisso contínuo com a construção de cidades mais justas e inclusivas.
Com experiência em entidades de classe, onde assumiu cargos de liderança ainda no início da carreira, e também na gestão pública, como na Secretaria de Urbanismo e Licenciamento da Prefeitura de São Paulo, Fernanda construiu uma atuação voltada à política urbana, à legislação e, especialmente, à Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS). Ao longo dos anos, tem contribuído para o fortalecimento desse campo, tanto na prática institucional quanto na reflexão crítica desenvolvida em suas pesquisas.
Você assumiu cargos de liderança muito cedo, como a presidência do sindicato ainda no início da carreira. O que te motivou a seguir por esse caminho e como isso guiou sua trajetória?
Eu nunca me imaginei presidente de um sindicato, porque eu nunca tinha me colocado em uma posição de liderança, eu era tímida e tinha medo de falar em público. Chegar ali e chacoalhar um pouquinho as estruturas foi importante. Porque eu percebi que todos os eventos e reuniões que eu participei que envolviam as entidades de classe, eu era sempre uma das poucas mulheres, ainda mais jovem. As poucas mulheres que tinham eram bem mais velhas do que eu e a maioria eram homens também bem mais velhos do que eu. Era um espaço bem desafiador e eu estava ali como uma jovem com pouca experiência. Foi essa situação no sindicato que me fortaleceu também. Porque eu tive que encarar alguns medos, como, por exemplo, falar em público. Me lembro de uma vez dar uma palestra para estudantes da UFSC e eu via eles olhando para mim com os olhos brilhando, achando muito legal. Ali eu vi que eu era capaz de repassar um conhecimento para frente e entendi que eu queria ser professora.
E o tema da Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS) também veio nessa atuação junto ao sindicato. Quando eu entrei no sindicato esse assunto estava super em alta e se falava muito sobre habitação. Tinha todo um aparato institucional que acentuou essa discussão e eu, como representante do sindicato, comecei a participar de eventos organizados pela FNA que abordaram isso. Então foi através da minha atuação nas entidades de classe que eu me aproximei da discussão sobre ATHIS e resolvi estudar isso no mestrado. E eu consegui trazer uma visão um pouco diferente da maioria dos trabalhos da época na minha dissertação, com uma visão de como os arquitetos se enxergavam dentro desse campo e o que estava sendo discutido. Com isso eu fui percebendo contradições nesses discursos também, que às vezes eram muito elitistas, muito assistencialistas e pouco político e pouco voltado para a questão. A assistência técnica tem que ser política pública, porque quando a gente fala em direito a gente está falando de política pública. Essa é uma discussão que eu trouxe na minha dissertação de mestrado e que eu fui vivenciando ao longo dos anos também.
A sua carreira é marcada pela atuação em política urbana, especialmente na Prefeitura de São Paulo. Como foi essa experiência dentro da gestão pública?
Em 2020 eu fui convidada para participar de uma chapa 100% feminina no Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) e nas discussões dessa chapa se falava muito sobre assistência técnica também, inclusive de garantir isso como um direito e sensibilizar o poder público. Essa chapa foi um momento muito importante da minha trajetória, porque a gente fazia um trabalho muito diferente do que geralmente se vê nas entidades de classe, muito mais coletivo e menos centralizado. A grande maioria da nossa profissão é formada por mulheres arquitetas e urbanistas, mas quando a gente chegava nos espaços de decisão e liderança a gente só via homens. E eu fui vendo essa transformação ao longo dos anos e da minha atuação nas entidades, foram aparecendo mais mulheres e pessoas mais jovens. Esse movimento foi importante para dar uma renovada, trazer novas visões e transformar o perfil dos conselheiros. Hoje o CAU/SP tem pessoas trans, tem mais pessoas negras também.
Nessa mesma época eu assumi o cargo de assessora técnica na Coordenadoria de Legislação de Uso e Ocupação do Solo (DEUSO), que faz parte da Secretaria de
Urbanismo e Licenciamento de São Paulo. Foi quando eu comecei a me aproximar mais da política urbana na prática mesmo, porque é um setor que trabalha muito com análise e produção de pareceres técnicos de casos muito específicos. Tudo que se tem sobre dúvida de legislação de uso do solo, sobre aplicação de parâmetros para licenciamento de edificações passa por lá. Inclusive análises relacionadas a grandes equipamentos de infraestrutura urbana, como estações de metrô, estações de tratamento de esgoto, terminais de ônibus e aeroportos. É um lugar que trabalha muito na interface entre a arquitetura e o direito. o nosso trabalho ali era traduzir uma linguagem mais técnica, interpretar uma lei, que vinha com uma linguagem jurídica, e entender como ela se aplica no espaço. Nossa equipe era bem multidisciplinar, com pessoas do direito, engenharia, arquitetura e geografia. Estar nesse lugar foi um grande aprendizado e lá eu pude ver na prática como a política urbana pode melhorar ou piorar as cidades.
A política urbana não é apenas uma lei escrita num papel que é seguida, ela envolve disputas políticas, ideológicas. No período em que eu estive lá teve revisão do plano diretor, revisão da lei de uso e ocupação do solo. Essas experiências, tanto na gestão pública na prefeitura de São Paulo, quanto no CAU/SP, me deram conhecimento sobre o setor público que hoje me ajudam com a minha pesquisa de doutorado.
Como você avalia o avanço da ATHIS no Brasil nos últimos anos? Quais são os principais entraves para que a assistência técnica se torne, de fato, uma política pública estruturada e qual o papel dos arquitetos e urbanistas nesse processo?
A maior demanda habitacional que a gente tem hoje no Brasil é de inserir os arquitetos e urbanistas em uma política de melhorias habitacionais, para reformas de residências que já existem e que não precisam ser substituídas por unidades novas. Nunca existiu uma política de peso estruturada no país e são essas discussões que eu estou tentando trazer para a minha pesquisa de doutorado na UFBA.
Eu acho que esse tema tem avançado bastante. Acho que a política pública já está em construção, já existem grupos de profissionais capacitados que estão querendo trabalhar com isso, ou trabalhando com isso de uma forma precária, dependendo de editais do CAU ou de militância, financiamentos pontuais. Mas existem profissionais para trabalhar, a demanda existe e as pessoas também já têm se tornado mais conscientes desse direito. E eu acho que o CAU tem um papel fundamental nisso, por ser uma autarquia pública e um órgão que regulamenta a profissão, tendo um papel importante de dialogar com outros conselhos também. O trabalho da ATHIS não é só para o arquiteto e urbanista, ele também envolve outras áreas, como assistente social, engenharia, geografia e direito. É um trabalho que tem que ser multidisciplinar e tem muitas articulações acontecendo.
Na época que eu fiz a minha graduação, por exemplo, não se falava nada sobre isso, sobre habitação social. Hoje existem cursos que têm disciplinas específicas, tem muito mais projetos de extensão e articulações. No Ministério das Cidades foi criada a Secretaria de Periferias, onde foi lançado um programa de reformas do governo federal. Isso já é um início. O que eu acho que é um grande desafio para que a ATHIS se torne algo mais estruturado e uma política com mais peso é a falta de arranjos jurídico-institucionais. Porque não basta ter uma lei. A lei garante o direito de que famílias com até três salários mínimos tenham serviços gratuitos de arquitetos e urbanistas para construção, reforma, ampliação e regularização fundiária de suas casas, mas só uma lei não cria política pública. É preciso de todos esses arranjos, as regulamentações, o fundo público de onde vem o recurso. É uma coisa bem complexa para que a política funcione lá na ponta, no território.
Além disso, não acho que a assistência técnica tem que ser política. A política tem que ser uma política de habitação social que inclua a assistência técnica, inclua o trabalho dos arquitetos e urbanistas mais próximo da população. Porque se a gente está falando de habitação social, eu posso fazer um monte de conjuntos habitacionais todas iguais pelo Brasil inteiro, como já foi feito, mas tem muita coisa que é ruim, que trouxe efeitos negativos para as cidades, por serem muito localizados em áreas muito distantes da infraestrutura urbana, do transporte público, da oferta de trabalho. Isso acaba excluindo essa população que vai morar nesses lugares. Não quer dizer que não existam arquitetos e urbanistas fazendo projeto desses prédios, mas eles estão cumprindo um papel de repetir uma solução pelo Brasil inteiro. A diferença da assistência técnica está no fato de os arquitetos e urbanistas estarem trabalhando junto com a população, para também auxiliar a população a entender o que é esse trabalho, conhecer um pouquinho disso e poder tomar suas decisões por conta própria. A população sabe construir. É só a gente olhar para as favelas, onde tudo é construído sem arquitetos. A gente precisa mostrar a diferença, talvez criando espaços coletivos e não só da casa individual. Bairros, ruas, equipamentos públicos, usar o conhecimento técnico para fortalecer laços comunitários.
Como você avalia a presença das mulheres nos espaços de decisão na arquitetura e urbanismo? Quais desafios ainda persistem para a ampliação da participação feminina em cargos de liderança?
O trabalho na assistência técnica acontece muito mais no território, muito mais próximo da população do que um arquiteto que trabalha em um escritório. Esse trabalho é mais coletivo, mais horizontal, feito em equipe. Acho que isso muda muito a forma de trabalhar e vem mudando a visão dos profissionais sobre a própria profissão, além de ser uma visão muito mais feminina sobre esses processos. Porque todas essas instituições, cargos e formas de trabalho foram criadas por homens, de uma forma vertical, hierarquizada e centralizada em uma única pessoa.
Mas ainda existem muitos desafios para mulheres participarem desses espaços. Até porque não basta apenas uma mulher participar, já que esse espaço foi criado por uma sociedade onde o patriarcado reina. Ele já é endurecido, teria que mudar a sociedade como um todo, de fato, mas aí isso já é uma coisa mais utópica. Essas disputas por espaços ainda acontecem muito, a gente vê isso no mundo todo. Os homens estão perdendo os seus privilégios e não estão reagindo muito bem a perder esses privilégios. Acho que as mulheres vêm para transformar bastante as formas de trabalhar.
Eu queria dar um um exemplo de um grupo que eu admiro muito, que se chama Arquitetura na Periferia e atua nas periferias de Belo Horizonte. Elas fazem trabalho junto com mulheres, ensinando as mulheres a construir, a ler planta, a desenhar, a fazer gestão financeira. Tudo para que elas mesmas possam, por conta própria, fazer esse trabalho de melhoria das suas casas com conhecimento técnico. Os arquitetos vão ali coordenar esse trabalho, não ficam lá fazendo tudo. Talvez seja esse um futuro possível.
Foto: Arquivo Pessoal Fernanda Simon
