Cidade como um direito: trajetória de lutas de Matheusa Silva

Pensar a cidade como espaço de disputa, memória e transformação é o que move a trajetória de Matheusa Silva. Técnica em Edificações pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA)  e graduada em Urbanismo pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), a profissional construiu sua formação articulando ensino, pesquisa e extensão, com foco em temas como patrimônio urbano, direito à cidade e assessoria técnica a movimentos sociais.

Integrante do Grupo de Pesquisa e Extensão “Direito à Cidade”, que atua na análise de conflitos urbanos e na promoção da participação social, sua atuação se desenvolve diretamente em diálogo com as realidades e tensões do território. Assim como no ambiente acadêmico, sua trajetória profissional é constantemente permeada pela luta pelo direito à cidade e pelo ensino da população sobre seus direitos enquanto cidadãos.

Ao longo de sua formação, a urbanista também se destacou no movimento estudantil, com passagem pela direção da Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (FeNEA), onde contribuiu para debates sobre ensino, formação e o papel social da arquitetura e do urbanismo. Sua produção acadêmica, que atravessa questões como cultura, memória e políticas urbanas, reflete um compromisso com a construção de cidades mais justas e inclusivas.

Como o seu envolvimento no movimento estudantil e todas as suas vivências dentro da universidade pública contribuíram para a formação da profissional que você é hoje?

O que eu fiz foi falar “vamos construir uma rede, vamos construir ponte, identificar potencialidade”, porque o curso só de Urbanismo às vezes acaba sendo muito nichado. E por isso que eu me envolvi no movimento estudantil e em grupo de pesquisa. Até hoje, mesmo depois de formada, eu ainda estou inserida no grupo de pesquisa e extensão de direito à cidade, fazendo assessoria técnica popular. Foi na assessoria técnica popular e no movimento estudantil que eu me encontrei profissionalmente. Hoje trabalho com mediação de conflito territorial urbano e com articulação comunitária. Ou seja, trabalho organizando movimentos sociais, na luta pelo direito à cidade. E o direito à cidade como algo difuso, como direito a transporte, direito à habitação, direito a saneamento, direito à políticas públicas.

O direito à cidade é um conceito central na sua trajetória. Como você enxerga esse debate no contexto brasileiro atual?

Nós lutamos pela classe trabalhadora brasileira, o que inclui muita gente com uma série de trajetórias diversas. Pelas famílias em situação de rua ou com trajetória de rua. É muito difuso e muito variado. A gente trabalha com os movimentos de acesso à moradia, com os movimentos religiosos que prestam assistência e desenvolvem um trabalho de articulação comunitária. Hoje eu trabalho na Coordenação de Articulação Social da Secretaria de Relações Institucionais do Governo do Estado da Bahia. Essa coordenação é uma das casas que os movimentos sociais têm ao acessar o governo do estado para apresentar suas propostas. Então a gente luta pelo direito à cidade para conseguir aquilo que está previsto, que deveria estar sendo cumprido de acordo com a nossa Constituição. A gente luta pela necessidade de reivindicar a justiça social. É necessário reivindicar justiça social para uma população como a nossa que é e foi explorada economicamente através da escravidão, através do machismo.

Eu costumo dizer que um bom urbanista precisa ser um bom vizinho. Hoje, por exemplo, eu lido com o fato de que o meu bairro não tem linhas de ônibus. A formação e o envolvimento na assessoria técnica ao direito à cidade me permitiu fazer essa leitura crítica. A gente acha que vai mudar o mundo, mas às vezes o trabalho é solicitar uma linha de ônibus, lutar por uma cobrança de IPTU mais justa. Às vezes são coisas muito pequenas, mas que trazem um impacto imenso. Eu aprendi como urbanista a retificar um cálculo de IPTU que estava sendo feito errado na minha casa. São coisas práticas, que estão na nossa frente e que a gente acha que é uma coisa tão habitual, que não parecem um trabalho digno de um arquiteto e urbanista, mas é. Colegas arquitetos me dizem que aprenderam muita coisa, mas que a maior felicidade foi aprender a fazer a reforma da própria casa. Imagina uma pessoa da classe trabalhadora, que entra na universidade pública por cotas, aprende instrumentos para conseguir fazer a reforma da sua casa, da casa do seu vizinho, da sua família. É isso que é transformador também. 

Quais são, hoje, os principais desafios para pensar cidades mais justas no Brasil? 

É muita coisa, né? Acho que o maior desafio hoje, e eu falo como uma pessoa que quer voltar para a universidade na condição de docente, é que nós precisamos educar arquitetos e urbanistas a serem cidadãos. E precisamos também educar cidadãos a serem cidadãos. Se não, a gente nunca vai ter um ofício reconhecido. Briga-se muito pelo reconhecimento do ofício, mas se o cidadão não consegue entender pra que serve o ofício de urbanista na sua vida cotidiana, e como o acesso ao direito de, por exemplo, ter um IPTU mais justo é o trabalho de um urbanista, como ele vai acessar isso? As pessoas precisam saber dos seus direitos. Elas têm direito de reivindicar os instrumentos da política urbana, como o IPTU progressivo ao longo do tempo, o usucapião urbano. Esses instrumentos podem ser utilizados para fazer justiça social. Se não a gente reivindica a nossa profissão como algo muito importante, mas no final de contas ela é importante pra quem?

Eu costumo brincar com os meus calouros que a nossa profissão nos dá muito poder. Tanto de transformar minimamente a vida das pessoas, dando justiça social, quanto de ser um especulador imobiliário. A gente pode tirar linhas de ônibus de bairros, a gente pode fazer uma obra de saneamento no meio da rua e atrapalhar a vida das pessoas durante meses. A gente pode expulsar pessoas de casarões ocupados e achar bacana deixar eles vazios até que caiam ou virem hotéis de luxo. A gente pode trabalhar pelo lobby do mercado imobiliário. 

E o que a gente pode fazer a partir disso? Educação. A educação é uma ferramenta, e pouco se discute o papel dela na formação de arquitetos e urbanistas. Como eu enquanto arquiteta e urbanista ensino às pessoas que elas têm direito à cidade. Não é um trabalho fácil. Eu chego na universidade e vejo colegas egressos ou recém-ingressos que não sabem que tem direito à cidade. Eu tenho que explicar ao estudante que está chegando que o ônibus que ele pega é urbanismo. A linha que ele pega, se ele não pega, se ele tem que ficar três horas entre pegar um ônibus, fazer baldeação com metrô, pegar o segundo. Isso tudo é fazer urbanismo, é fazer planejamento urbano. Então ensinar a essa pessoa que uma coisa muito rotineira da vida dela é fazer planejamento. Tem uma interdisciplinaridade e a gente precisa fazer uma disputa pelo direito à cidade, pelos nossos direitos. Então se eu for falar o que precisa mudar muito é a educação. A gente precisa investir bastante em educação popular, linguagem acessível, sem os nossos maneirismos de técnicas e técnicos. Os movimentos sociais por moradia já sabem tudo isso, foram eles que organizaram os editais. Precisamos ser comunicadores e educadores populares.

Quais pautas você considera mais urgentes hoje dentro da formação em urbanismo atualmente?

Acho que também é importante a gente considerar as questões de gênero. A gente ainda precisa lidar com muito machismo, muita misoginia na nossa prática profissional. A gente precisa lidar muito com o racismo, que é uma coisa cotidiana na profissão do arquiteto e urbanista. Pessoas pretas retintas, pessoas pretas de pele clara sofrem um racismo muito violento no espaço de trabalho, porque é uma profissão para as elites. Então  a gente tem um caminho a trilhar, de educação, de educação para o feminino, discussões sobre o lugar do feminino na cidade, quais os lugares possíveis para as feminilidades na cidade. O direito à cidade para a mulher cis, para a mulher trans, para a mulher negra, para a mulher quilombola, para a mulher indígena. O lugar para as pessoas negras, a violência policial. São essas nuances da nossa profissão que são muito importantes de encabeçar, e a FNA tem sido muitas vezes a única a fazer isso e de trazer essa discussão de forma muito ousada.

Foto: Rádio Sociedade da Bahia

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