André Huyer: o olhar de conjunto como compromisso com as cidades

Observar a cidade sempre significou mais do que olhar edifícios para André Huyer. Em cada rua, praça ou bairro, ele enxerga uma rede de relações construída ao longo do tempo, onde patrimônio cultural, acessibilidade, habitação, mobilidade, sustentabilidade e desenvolvimento econômico precisam coexistir. Essa busca por compreender o conjunto, e não apenas as partes, acompanha sua trajetória como arquiteto e urbanista há mais de quatro décadas.

Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1985, Huyer construiu um percurso que atravessa diferentes campos de atuação. Trabalhou como profissional liberal, atuou na gestão pública, integrou o Ministério Público do Rio Grande do Sul e também dedicou parte da carreira à formação de profissionais, ministrando cursos, palestras e participando de atividades acadêmicas sobre planejamento urbano, patrimônio cultural, acessibilidade e sustentabilidade.

A experiência acumulada em diferentes espaços lhe permitiu conhecer os desafios da arquitetura e do urbanismo sob perspectivas variadas. Estar dos dois lados do balcão: como projetista, servidor público, pesquisador e consultor, reforçou uma convicção que o acompanha até hoje: as cidades não podem ser pensadas de forma fragmentada. Questões como desenvolvimento econômico, preservação do patrimônio cultural, conforto ambiental, habitabilidade e inclusão precisam caminhar juntas. Para Huyer, uma das maiores contribuições da arquitetura e do urbanismo está justamente na capacidade de articular diferentes interesses e compreender a cidade como um sistema vivo, complexo e interdependente. “O que vejo é que todos os interesses devem ser contemplados de maneira conjunta, como creio que deveria ser a mentalidade dos arquitetos: visão de conjunto”, aponta.

Foi essa compreensão que o aproximou cada vez mais do planejamento urbano. Ao longo dos anos, dedicou-se ao estudo dos planos diretores e dos instrumentos de gestão previstos na legislação urbanística brasileira. Especialista em Patrimônio Cultural em Centros Urbanos, mestre e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UFRGS, desenvolveu pesquisas voltadas à aplicação dos princípios do Estatuto da Cidade e à efetividade das políticas urbanas no Brasil.

Entre os temas que mais mobilizam sua atuação está a preservação do patrimônio cultural. Ao acompanhar as transformações das cidades brasileiras ao longo das últimas décadas, passou a defender a necessidade de conciliar desenvolvimento urbano e proteção da memória coletiva. Para ele, preservar não significa impedir mudanças, mas garantir que a identidade dos lugares permaneça presente enquanto as cidades continuam se reinventando. A valorização dos centros históricos, das paisagens culturais e das referências construídas pelas comunidades faz parte de uma visão de cidade que respeita o passado sem abrir mão de planejar o futuro.

Sua trajetória acadêmica também o levou a refletir sobre os limites da implementação das políticas urbanas brasileiras. Estudioso do Estatuto da Cidade, observa que muitos dos instrumentos previstos na legislação ainda encontram dificuldades para serem efetivamente aplicados: “Fiz uma tese de doutorado cujo questionamento era: O Estatuto da Cidade é letra morta? A resposta foi sim, o Estatuto da Cidade é olimpicamente ignorado. É ignorado pelos planejadores urbanos, pelos poderes executivos, pelo judiciário e até mesmo pelo Ministério Público”, analisa. A flexibilização constante das normas urbanísticas, a fragilidade dos processos participativos e o distanciamento entre planejamento e gestão são desafios que, em sua avaliação, continuam presentes em grande parte dos municípios brasileiros.

Para ele, muitos dos desafios urbanos contemporâneos decorrem da dificuldade de se pensar a longo prazo. Enquanto os efeitos das decisões sobre o território costumam aparecer ao longo de décadas, boa parte das escolhas públicas e privadas continua orientada por resultados imediatos. “Os desafios seriam de conscientizar as comunidades e seus representantes da importância do planejamento urbano existir, dele ser bem planejado e de ser cumprido conforme foi planejado. É um desafio muito difícil de ser alcançado, pois os resultados positivos, ou negativos, do planejamento urbano somente são observados no longo prazo, e nossa cultura é imediatista, não tem paciência, e não reconhece que muitos de seus problemas urbanos são consequência de escolhas que fizeram anteriormente”, explica Huyer. 

Outro tema presente em sua atuação é a acessibilidade. Ao longo da carreira, acompanhou debates e processos relacionados à inclusão e à adequação dos espaços urbanos às diferentes necessidades da população. Para ele, construir cidades acessíveis significa reconhecer a diversidade humana e compreender que autonomia, mobilidade e acesso aos espaços públicos são direitos que beneficiam toda a sociedade. Mais do que atender exigências legais, trata-se de promover cidades capazes de acolher pessoas em diferentes fases da vida e condições de mobilidade. 

O compromisso com a profissão também encontrou espaço na atuação sindical. Desde 1993, participa de diferentes gestões do Sindicato dos Arquitetos no Estado do Rio Grande do Sul (SAERGS), entidade da qual foi diretor e vice-presidente. Ao longo dessa caminhada, contribuiu para o fortalecimento da categoria e para a defesa do papel dos arquitetos e urbanistas nos debates sobre desenvolvimento urbano e políticas públicas. Para Huyer, discutir cidades também significa defender condições para que os profissionais possam participar ativamente da construção de seus futuros. Esse compromisso materializa-se também em contribuições criativas: André foi responsável por conceber o design do atual troféu do prêmio Arquiteto e Urbanista do Ano do SAERGS, tendo como inspiração o logotipo do Sindicato. A honraria é conferida anualmente a profissionais gaúchos que se destacam por suas atuações na área, buscando promover o trabalho desenvolvido pela categoria e valorizar a carreira de quem contribui para a Arquitetura e o Urbanismo no estado.

Ao refletir sobre os desafios das cidades gaúchas e brasileiras, Huyer reforça a importância de recuperar uma visão integrada do território. Em um cenário marcado por mudanças ambientais, transformações sociais e disputas sobre o uso do espaço urbano, acredita que arquitetos e urbanistas têm a responsabilidade de defender soluções comprometidas com a sustentabilidade econômica, ambiental e social. Questões como patrimônio cultural, acessibilidade, qualidade ambiental e planejamento não são temas isolados, mas partes de um mesmo projeto coletivo de cidade. “Isso tudo envolve um processo de amadurecimento da sociedade como um todo. Então, nós arquitetos e urbanistas temos que seguir fazendo a nossa parte, marcando nossas posições, não baixando a guarda”, recomenda.

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