O uso de softwares livres como instrumento de democratização e inclusão social pautou o 1º Seminário Estadual Solare/ Bahia. Ao longo desta quarta-feira (10/12), as discussões ocorreram na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “O que a globalização pode ter de positivo é a ampliação da comunicação e o avanço do meio técnico-científico-informacional, que expandem a circulação e a articulação do conhecimento e isto é feito de forma colaborativa, quando se trata das ferramentas livres”, disse Paula Adelaide Mattos Santos Moreira, coordenadora do Solare.
Um exemplo de tecnologia voltada ao bem social foi apresentado por Mabrisa Reis, engenheira cartógrafa e integrante do projeto ComMap. A iniciativa promove formação, trocas intergeracionais e construção coletiva do chamado território com
mulheres das ocupações Marielle Franco e Alto da Conquista, em Simões Filho (BA). O OpenStreetMap é usado para mapeamento colaborativo, permitindo que a própria comunidade inclua dados sobre seu espaço. Essa prática, explicou,
identifica demandas locais, amplia vozes e fortalece as comunidades. “É a construção do território por pessoas que não são especialistas, mas que conhecem seu local.” Essa dinâmica, completou Milena Moreira, torna-se ferramenta política e afetiva. “Quando esses pontos se encontram, o território deixa de ser só objeto de projeto. O mapeamento colaborativo vira instrumento de inclusão e planejamento participativo, fortalecendo vínculos entre técnica, território e comunidade”, disse a graduanda de Arquitetura e Urbanismo.
Em suas pesquisas, Fabianne Balvedi disse observar que o uso de softwares livres se confirma como forma de economia solidária, com caráter ativista e potencial social. “A lógica do software livre é o bem-estar social, para que as pessoas tenham
uma vida digna e honesta”, afirmou a arquiteta e urbanista.
Na mesma linha, Pedro Henrique Reis de Lima, mentor em implantação BIM e fundador da HR Compacta, empresa dedicada à mentoria, cursos e palestras sobre softwares livres, tratou do uso de ferramentas como o FreeCAD na metodologia BIM, com acesso universal. “O FreeCAD foca na democratização da tecnologia e no acesso igualitário à ferramenta em BIM, independentemente da situação financeira”, afirmou.
Do ponto de vista acadêmico, Ana Paula Carvalho Pereira, professora da Faculdade de Arquitetura da UFBA, defendeu que as dinâmicas e relações do uso de softwares livres no ensino de Arquitetura e Urbanismo devem produzir independência. Para
ela, “ensinar ultrapassa o simples ato de transmitir um conhecimento”, por isso é fundamental adotar métodos de aprendizagem baseado em projetos e problemas, com foco na experimentação. “Não queremos ensinar apenas um software,
queremos desenvolver autonomia”, disse.





Na parte da tarde, na palestra “Blender como ferramenta para desenvolvimento de projetos em arquitetura e IA”, o arquiteto Allan Brito afirmou que todos os projetos disponibilizados pelo Solare são adaptados para arquitetura e totalmente livres, assim como os cursos oferecidos. O consultor, que usa o Blender desde 2005, atua na disseminação do software entre arquitetos brasileiros, publicou livros sobre o tema e auxilia o Solare desde 2002. Ele ressaltou que diante do alto custo de softwares tradicionais que pode consumir quase sete vezes mais do orçamento de um arquiteto brasileiro em comparação com um profissional dos EUA, tornando essas ferramentas inacessíveis para grande parte da categoria, o Blender se torna uma alternativa para estudantes e autônomos. “Todos os softwares comerciais vêm de países com realidade econômica completamente diferente da brasileira”, afirmou.
O evento encerrou com a mesa “Estratégias para disseminação do uso de softwares livres para arquitetos e urbanistas na Bahia”, sobre sua adoção em instituições de ensino, órgãos públicos e escritórios, com participação de Tiago Brasileiro (CAU/BA), Fabiano Mikalauskas de Souza Nogueira (LCAD/FAUFBA) e Daniel Marostegan (RAU+E/FAUFBA).
O 1º Seminário Estadual foi realizado pelo Solare, por meio da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia (CAU/BA), com apoio do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas do Estado da
Bahia (Sinarq/BA), da UFBA, do LCAD e da RAU+E. A transmissão do evento está disponível no canal do YouTube @CAUBAOficial.
Fotos: Pedro Henrique Reis de Lima e Paula Moreira.
